segunda-feira, 5 de março de 2007

ENTARDECER(exercício de prosa)

Dizer o que veio antes não interessa. Já foi contado muitas vezes, por desconhecidos em obras anônimas a que chamam suas vidas e por pessoas mais sabidas: Rodin contou em pedras, Shakespeare em letras, Dali em tintas, Drummond em rimas.
Isso que passou e que jamais cessa, cuja explicaçao é desnecessária, fica nos olhos de alguma gente, mas nos olhos da maioria não demora, passa, deixando apenas uma mancha indelével... e uma falta certa de cor.
Interessa mesmo é dizer que fazia Sol. Muito. Aquela luz, paga com suor e calor quando ainda era cedo, iluminava os dias e as noites daqueles dias e fazia o Atlântico chiar, cor de cobre depois das seis.
O horizonte não anunciava a noite, certa e quase madura, quando ela chegou, borboleta sobre a blusa blue, horas antes do Sol se pôr. Seus olhares se procuraram com alguma angústia porque ainda não tinham um ao outro sob o domínio do tato; e com certa pressa porque sabiam que logo poderia ser muito tarde. Esperavam tanto aquele instante em que estariam longe de tudo que os separava - justamente quando andavam mais próximos, à distância de um piscar do desejo, que mal puderam conter-se, colhendo-se um tanto sem jeito, na calçada à beira-mar.
Ele quis beijá-la, mas ela, mais medrosa ou prevenida, disse que era cedo. Sem fazer alarde, ofertou-lhe a face, sugerindo com muita facilidade que o lugar deles era outro, mais perto de onde o mar faz mais barulho, onde os segredos são feitos de areia e nas veias, calmamente, o sangue arde.
Desceram para a praia. Enquanto caminhavam ela falava e sua voz ia preenchendo cada vazio que ele já sentira. Haviam descalçado os sapatos e a areia era já o reino daqueles dois seres, unidos pelo mesmo tanto que seus pés tocavam. Desta vez seus olhos acharam-se suavemente, sem pressa, sem disfarces. Eram eles naquele instante de verdade. Eram deles, seus, donos de suas vidas por uma fração deste "tremor que tudo rui" chamado tempo. Olharam-se mais. Ela viu milhões de cores nos olhos dele, ele viu o oceano derramar-se ocre nos olhos dela. Suas bocas tocaram-se, como antigas partes de uma mesma parte, como coisa perfeita, inexplicável, inextrincável, que fazia todo o som à volta deles calar.
Depois falaram de tudo, deitados na areia, as pernas enlaçadas, como se fossem íntimos há muitos anos. Do mercado semanal ao marketing diário; das manchetes no jornal, do trabalho, dos planos que tinham traçado até ali, dos lugares em que haviam estado, de pessoas, medos e vontades, vergonhas e vaidades. E suas vidas desenharam-se vagamente sobre a areia molhada. Ele ousou falar sobre o futuro. Sonhou fugirem juntos, disse que iria com ela. Ela riu um pouco e disse coisas impensadas.
Mal suspeitaram que logo anoiteceria. Ele deu as costas para o Sol sem importar-se com o espetáculo, enquanto ela preocupou-se um pouco demais com a realidade. Eram tão diferentes, mas tão iguais. Ele já identificava no canto daqueles olhos qualquer coisa de mesquinho, enquanto ela adivinhava devagar a têmpera bruta daquela voz que a fazia sentir-se quase frágil. No instante seguinte, foi o contrário.
Uma gaivota olhou pela última vez o peixe e mergulhou, certeira, para a vida que clamava por ela. Não sentiu qualquer remorso ou desconforto quando, pouco depois, recolheu-se com a barriga cheia de peixinhos. Eles não viram nada.
Ela falou em partir; ele gritou: - Partilhar!
Ela teimou em ir embora. Ele obrigou-a ao agora que era quase noite. Beijaram-se demais, muito mais... pela tarde interminda.
Quando tomaram a estrada, tontos de mar, para suas casas, cercaram toda a paisagem e desceram na mesma parada. A estrada se bifurcava.
O cruzamento cinzento, onde quase não há calçadas, onde as pessoas separam-se em suas caminhadas, quase fez descer sobre eles a noite atrasada. Conseguiram fugir por um canteiro estreito e ganharam ruas mais claras, de casas sem muros e antigas madrugadas. Ruas de uma infância estampada na cara. Ele disse que seguiria com ela, sempre. Ela riu mais um pouco. Ele contou histórias, falou daquele lugar que já havia sido todo dele, pintou de branco os tijolos encarnados, povoou de ladeiras as risadas dela enquanto caminhavam. Suas mãos se encontraram muitas vezes; suas bocas quase não se afastaram.
Quando desciam a primeira ladeira juntos, pouco antes da insuspeitada última curva que fariam juntos, o som de um violão pediu que ficassem, anunciando que era possível evitar o inevitável: a estrada dividiria-se de novo, talvez logo, talvez logo mais.
Seus corações encurtaram a passada. Pararam sob um pé de romã. Havia flores no chão. Abraçaram-se e seus lábios confundiram-se até arderem em brasa. Suas mãos despediram-se muitas vezes, denunciando a saudade antecipada que apenas nascia.
De volta à realidade, ela disse que precisava atravessar a rua. Ele discordou e beijaram-se brevemente, selando suas vontades.
Assim que fechou a porta, o silêncio permitiu que ela ouvisse o próprio coração em disparada.
Ele ainda andou outras quadras e uma chuva deliciosa desceu sobre tudo.


O que veio depois não é preciso contar. Já foi contado muitas vezes, por reconhecidos homens em obras a que chamamos primas - ainda que sejam pedra, papel e tinta - e por outros tantos, anônimos, nos momentos de suas vidas em que tudo parecia ser real...
mas não passou de clima.

PS: Ainda há areia nos sapatos dele.

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