segunda-feira, 11 de setembro de 2006

PORQUE

Escrevo
porque esqueço
porque rejeito guardar
porque me lavo
dos sujeitos adquiridos
noutros textos
ser pequeno demais para contê-los
é meu vício
e há praias noutras galáxias
à espera de movermo-nos
não sabemos mas as ondas
muito longe formam-se
dos nossos gestos...

porque há as coisas que não vemos
há o nunca ter certeza,
deflagrada natureza de tudo
e porque frágil e repetitivo
iludo-me costurar ao cosido
asas que voem além de mim e desejadas
permaneçam abertas
voltadas pra nenhum sentido...

porque desejo ser todo em vez de indivíduo...
e objeto o sujeito em mim contido...
sinto-me idéia vaga de um espaço
pouco preenchido

inconsistentemente consciente
recuso-me a aceitar o que bem sei:
tudo um dia estará perdido
para que outro tudo tenha vez...
e porque é permitido

senão,
eu cantaria.

Um comentário:

  1. O que somos? Quem somos? E o que de nós fica pra esse mundo? Senão nossos registros, o que marcamos à tinta ou à ferro, ou com bits, como faz a humanidade atualmente? Essa expressão é a própria vida, a própria essência do "ser", enquanto ser verdadeiro e inteiro. Mesmo que dure um intante apenas, valerá à pena registrar e fixar a idéia, como faz a poesia, a arte, para que o ser inteiro seja então imortalizado. Esse poema traduz a essência da inquietude humana pela expressão...muito bom!

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